Comunhão com Deus: Mudando a morada do Pai
Pensar em comunhão com Deus é, no mínimo, abrir-se para novas experiências com Deus e com a própria humanidade. Existe sempre em meu íntimo um profundo receio ao abordar assuntos que demonstram a real necessidade de uma relação com Deus.
O medo se dá por ter a consciência de que é impossível estabelecer fórmulas para se tornar “comum” com/e para Deus. Ter comunhão com Deus é saber onde se inicia a estrada, ter a certeza da urgência de nosso primeiro passo nessa estrada, mas nunca visualizar o restante da estrada, um passo de cada vez, dia após dia. Felicidade e competência ao texto encontrado nos “Documentos Batistas”, afinal, nem a maioria nem a minoria nem a unanimidade refletem, necessariamente, a vontade de Deus.
A necessidade de se ter comunhão com Deus é tema orientador da apresentação relatada em 1João 1.1-4; onde a idéia central é a comunhão, não apenas entre autor e leitor, mas de forma igual tal comunhão se dá com Deus (o Pai) e Jesus Cristo (o Filho). Claro, ideias gregas sempre permeiam a nossa leitura dos textos do Novo Testamento (Segundo Testamento), mas o que buscava dizer o autor? Devemos lembrar da origem semítica de João, de sua relação e convivência com a revolução reformadora que foram os discursos e atitudes de Jesus Cristo para com a religião judaica. João aborda a comunhão com outros olhos, agora seus olhos veem Deus com uma proximidade estarrecedora, não há mais a distância imposta pelos ritos do judaísmo antigo. Pena termos perdido, ao menos nos discursos que monopolizam a mídia, a relação de proximidade com Deus, agora voltaram à tona os discursos dos antigos sacerdotes judaítas.
A voz do sacerdote no judaísmo antigo é aquele que sistematiza e centraliza a relação de culto do povo com Deus a seu templo, principalmente em Jerusalém. Os sacrifícios, que outrora foram símbolo da relação próxima entre os patriarcas bíblicos e Deus, agora estão desfeitos, só há sacrifício no templo e, mesmo assim, mediante a ação sacerdotal. O clímax pode ser apontado quando até mesmo a possibilidade de se recitar o nome de Deus (YHWH) torna-se uma insolência digna de maldição deste Deus sacerdotal. Deus está agora refém do templo e de seus mantenedores (Êxodo 20.7).
Jesus Cristo, porém, é a reforma do judaísmo, a perfeição no que diz respeito à relação Deus-Homem. Deus, agora na boca e na ação de Jesus é grande demais para um templo, Deus assume enfim uma forma imensurável, gigantesca, finalmente Deus é onipotente, onipresente e onisciente. A ação de Deus por intermédio de Jesus rompe todas as estruturas aprisionadoras do templo e nos torna filhos, nos aproxima de Deus. Com Cristo, a comunhão se dá em nosso amor incondicional a Deus, mas de igual forma se dá em nosso amor incondicional ao nosso irmão. Ter comunhão com Deus é saber que Ele (Deus) se abriga não mais no templo judeu, mas no coração e na alma do seu próximo (Marcos 12.28-34). Nossa comunhão com Deus é sermos estrutura de sustento ao nosso próximo, é finalmente vermos Deus abrigado nos olhos do necessitado e nos condoermos com ele, sermos unidos a ele pela relação de proximidade com Deus. O Deus de Jesus Cristo, do autor da primeira epístola de João e o nosso Deus é o Aba (Marcos 14.36), um adjetivo de tanta intimidade que nos remete ao interior das casas, das famílias, do nosso próprio sentimento para conosco e para com o nosso próximo.
Finalmente, entender Deus Comum a nós é ter a consciência de que Deus é grande demais para ser confinado em templos, porém, em contraposição, intimo ao extremo para ser encontrado em nossos quartos, de portas fechadas (Mateus 6.6), lá, no secreto de nossas almas, onde descansam os medos, receios e angústias, temos a certeza de encontrar Deus liberto dos sacerdotes e próximo, muito próximo dos nossos corações.


